
a brancura das coisas desgosta-me,
recorda-me o lençol de meu pai (1989),
recorda-me a neutralidade dos países não aliados nas últimas guerras,
gratuitamente, desencadeadas,
recorda-me a minha infância, branca como a neve, com voz sem gelo,
recordar-me o papel de fumar para enrolar um cigarro às escondidas de minha mãe...
recorda-me o meu tempo de neve à Saravejo (1980),
recorda-me as minhas noites brancas em São Petersburgo,
após um " vou ver se apanho-te",
durante um beijo roubado, pela última vez no Museu Hermitage (1984),
recorda-me o vinho branco que bebi com meu irmão M à casa do Escritor,
recorda-me o papel higiênico, mas, onde está a toalete?!
recorda-me a folha, sem a menor palavra verde,
recorda-me o papel de carta à procura de um possível coração vermelho,
recorda-me uma linha em branco, totalmente, perdida, no Mar Negro,
recorda-me os meus cabelos que ficaram brancos durante a guerra do Golfo...
embora eu goste do jasmim,
a brancura das coisas desgosta-me.
mas, apesar de tudo,
pinto, ainda, de branco
para denunciar o culpado de cada paradoxo vivido, em nós, até hoje.
esperarei pelas andorinhas,
não demoram em chegar...
Tunisia, agosto 26,2008